Pós-graduação: como solicitar uma orientação? Três passos!
- Kleber Del Claro

- 29 de abr. de 2023
- 5 min de leitura

Muitos alunos me escrevem todos os semestres perguntando sobre os processos de pós-graduação, sobre como funciona, como encontrar e como proceder adequadamente na abordagem de um orientador.
Algumas vezes, e não são poucas, me assusto com algumas perguntas e sinto que deveríamos ter nas graduações no Brasil, em todas elas, ao menos uma disciplina sobre como fazer uma entrevista, como solicitar uma vaga de emprego ou de pós-graduação. Uma parcela significativa de nossos acadêmicos, está completamente desorientada nesse aspecto.
Pensando nisso decidi escrever esse texto, buscando ajudar, contribuir com esses alunos de modo que entendam que existe sim um “passo a passo”.
Vou indicar aqui, alguns possíveis passos, que podem ser diferentes para cada um, dependendo de sua história de vida, de oportunidades, e até mesmo do acaso. Deixo claro que ninguém é dono da verdade, mas as dicas que dou aqui tenho visto ao longo de 30 anos que podem dar resultados muito positivos.
Passo 1 – Identificar o orientador
Normalmente o aluno pensa que vai encontrar alguém que trabalha com o que ele, aluno, gosta, ou quer trabalhar. Bom, isso é o ideal, mas é raro. É sim, agulha no palheiro.
A primeira coisa que você, como aluno deve entender, é que o orientador (na maioria das vezes) não vai se adequar exatamente ao que você quer propor como estudo, mas você deve se adequar a linha de pesquisa do orientador. Se ela for próxima ao que você deseja, ao que gostaria de fazer na vida, já está de bom tamanho. Encontrar a pessoa certa, que trabalha exatamente com o que você quer e tudo dar certinho no final, acontece sim! Mas não é o mais comum. Portanto, prepare-se para sua evolução Darwiniana, os sobreviventes serão os que melhor se adaptam.
Trabalhar na linha de pesquisa de um bom orientador é excelente, pois ao mergulhar no universo de domínio do pesquisador, suas chances de sucesso, de publicação, de um desenvolvimento maior e de internacionalização são potencializadas. Veja bem! Na minha linha de pesquisa, eu já domino a bibliografia, os métodos, sei o que pode ou não ser inovador, o que vale a pena ou não estudar. Assim, podemos elaborar boas hipóteses e vislumbrar antecipadamente onde publicaremos e com quem estabeleceremos pontes, inclusive para um período de estágio internacional do aluno. Já numa linha paralela ou nova, eu teria que caminhar junto com o aluno e os riscos são muito maiores, especialmente num tiro curto como é o mestrado.
Às vezes eu até topo essas aventuras, por muita insistência de um bom aluno. Mas vejo que no fim das contas o aluno, em 90% dos casos, não cresceu como poderia, não deslanchou.
Então, nesse primeiro passo, eu aconselho você a pesquisar possíveis orientadores dentro de seus interesses e investigar a carreira, orientações e publicações do colega.
Passo 2 – Estudar o orientador
Há diversos tipos de orientador, e fiz um texto especial sobre esse tema:
Mas o caso aqui é estudar mesmo a carreira da pessoa com quem você gostaria de trabalhar, então procure pelo: Curriculum Lattes, ORCID, Researchgate, Linkedin, GoogleSchollar, páginas na web ou nas redes sociais do possível orientador. Tente aprender tudo que puder sobre a pessoa:
O que ele estuda?
Há quanto tempo estuda o assunto?
Quantas pessoas já orientou nesse assunto?
Essas pessoas tiveram sucesso? Publicaram com o orientador?
Os ex-alunos estão empregados ou encaminhadas de alguma maneira?
A pessoa é respeitada na comunidade acadêmica?
O que os ex-alunos falam da pessoa?
Os programas de pós-graduação onde a pessoa está credenciada são bons? Tem bolsas?
Enfim, é um trabalho de detetive, pois você vai passar dois ou quatro anos na dependência de um bom relacionamento científico e pessoal com essa pessoa.
Então tá! Identificou e estudou o orientador, e agora?
Bom agora vem outra parte bem complicada.
Passo 3 – Como abordar o orientador ou como vender o meu peixe!
Educação. Bom, vamos lá, vamos ver se entendeu: Educação! Sabe, quando a gente vai na casa de uma pessoa a gente bate na porta, diz bom dia ou boa tarde, ou boa noite, espera ser convidado a entrar. A gente não vai se mostrando à vontade como se fosse a nossa casa, a gente segue as regras da casa a qual estamos visitando. Isso é o que manda a boa educação, polidez, trato fino. Um livro começa a ser vendido pela capa, assim como o peixe, pelo brilho dos olhos.
Escreva para o orientador sempre com muita educação e deferência, especialmente num primeiro contato. Exemplo:
“Para Profa. Dra Torezan-Silingardi
Inst. de Biologia – Univ. Fed. de Uberlândia
Estimada Professora,
Venho por meio desta me apresentar como possível candidato à sua orientação no programa de pós-graduação...”
Gente, você não deve escrever em um primeiro contato como se a pessoa fosse seu “coleguinha” do dia a dia, tipo assim:
“Oi Kleber, eu queria ser seu orientado sabe, me diz como posso fazer.”
Eu, normalmente respondo, converso com a pessoa que escreve de modo informal, mas muitos não vão nem responder. Quando a pessoa é formal num primeiro contato, segue a cartilha da academia, essa primeira impressão faz diferença. Alguns colegas vão dizer que não ligam, mas quando recebem as cartas nos dois modelos, formal e informal, garanto a você que levam a carta formal mais a sério.
Feitas as apresentações, você tem que se vender agora.
Você tem que convencer o orientador a lhe dar atenção, a ouvir o que você tem a dizer, a acreditar que você é uma pessoa a qual ele deve considerar que vale a pena investir o tempo e dedicação dele.
Pense bem, eu recebo dezenas de solicitações todos os semestres. Mas tenho duas a três vagas no máximo entre mestrado e doutorado para cada ano, isso porque sempre estou na cota máxima. Mas a maioria dos orientadores que não são 1A do CNPq vão ter uma vaga apenas, ou duas no ano. O afunilamento só aumenta. Considere ainda que eu, assim como os outros orientadores, já possa ter uma dessas vagas prometidas a um aluno que já está na IC conosco há anos. Então, você tem que ser muiiiito bom vendedor.
Portanto, já nesse primeiro contato apresente claramente ao orientador:
Seu CV Lattes bem-feito e atualizado;
Destaque se teve bolsas de IC, ou mestrado, publicações, resumos de congressos na área (não coloque coisas de áreas nada a ver!);
Seu nível de inglês: leitura, escrita e fala;
Seu conhecimento de estatística – conhece o R?
Indique duas referências, dois professores que podem falar de suas qualidades e defeitos.
E por fim, diga ao orientador, dentro da linha de pesquisa dele, qual assunto mais lhe interessa. Cite na sua argumentação algum dos últimos trabalhos publicados do possível orientador que mais lhe interessaram e porquê? Mostre que leu, que está por dentro do assunto. Mostrar que conhece os trabalhos do orientador, que está por dentro da teoria, que sabe que ainda há coisas importantes a serem investigadas faz brilhar os olhinhos de qualquer bom orientador.
Olha, se você seguir esses poucos passos, já estará na frente de 90% dos pedidos de orientação que vejo chegar às mãos de meus colegas mais próximos. Você já será visto como uma pessoa mais bem preparada, diferenciada.
Muitas pessoas vão lhe dizer diferente, as pessoas pensam diferente disso, e isso é muito bom. A universidade se faz da multiplicidade de ideias. Este texto é apenas uma pequena contribuição de alguém que já orientou um bom tantinho de gente, querendo ajudar.
Um abração e boa sorte!
Kleber Del Claro
Kleber Del Claro é Pesquisador 1A do CNPq, tem mais de 200 trabalhos científicos publicados em revistas indexadas, vários livros nacionais e internacionais, orientou mais de 100 alunos entre graduandos, mestres, doutores e pós-doutores. Está na lista dos pesquisadores mais influentes do mundo.




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