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  • Kleber Del Claro

Pequenas estradas em reservas naturais podem afetar a vida animal e vegetal?



Os efeitos das margens das estradas sobre a vegetação natural podem ser variados e impactantes. Muitas vezes a abertura de estradas em meio às florestas, cerrados e campos fazem com que as bordas da vegetação produzam mudanças nas condições abióticas (temperatura, umidade, etc) e bióticas (espécies animais interagentes, espécies vegetais nativas e possíveis invasoras) resultantes dos novos limites artificiais na vegetação que são criados por uma estrada.


Sabe-se que os efeitos de borda podem ter influências diretas e indiretas variáveis ​​sobre a biota (conjunto de organismos, animais, plantas, microorganismos, etc), que podem ser específicos de cada espécie e também do local. A abertura de uma estrada pode afetar o deslocamento dos animais, a visitação por abelhas às flores, as aves que dispersam sementes, e assim por diante.


No entanto, os efeitos de borda para a maioria das espécies de plantas e a maioria de seus respectivos componentes reprodutivos (as flores, frutos, sementes) ainda não foram avaliados, especialmente para plantas anemocóricas (dependentes do vento), que podem influenciar diretamente a estrutura do ecossistema. Não sabemos, por exemplo, como a abertura de uma estrada no cerrado afetaria a dispersão e fixação de sementes aladas (com "asinhas") que as ajudam a se dispersar pelo vento. Elas irão mais longe? Mas cairão em um solo profícuo à sua germinação e o crescimento de uma nova planta? Os polinizadores vão encontar mais facilmente ou com maior dificuldade as flores de plantas de borda do que de interior de mata?


Pensando nisso que a Profa. Dra. Helena Maura Torezan-Silingardi, do Instituto de Biologia da Universidade Federal de Uberlândia iniciou um estudo com sua equipe, tendo à frente sua brilhante aluna de Iniciação Científica, depois mestrado e hoje doutoranda na Universidade de Sevilha, na Espanha, Letícia Novaes. A equipe contou ainda com outros brilhantes estudantes, como Eduardo S. Calixto, hoje pós-doutorando na Universidade da Florida, USA, Larissa Alves Lima, doutoranda na ecologia UFU e Marcos Lima de Oliveira, mestre em Ecologia pela UFU. O grupo, que contou também com o Prof. Kleber Del Claro, é ligado ao Laboratório de Ecologia Comportamental e de Interações da UFU - Universidade Federal de Uberlândia.


Eles então testaram na prática sua teoria e o trabalho acaba de ser publicado online em uma das revistas internacionais mais importantes do mundo com alto fator de impacto (FI = 6.19), a Landscape!


Neste estudo, que será publicado em revista impressa apenas em Fevereiro de 2022, intitulado:

"Testing direct and indirect road edge effects on reproductive components of anemochoric plants" - ou seja: Testando efeitos diretos e indiretos de bordas de estradas em componentes reprodutivos de plantas anemocóricas, que será publicado em: Landscape and Urban Planning - Volume 218, February 2022 (https://doi.org/10.1016/j.landurbplan.2021.104291), os autores avaliaram direta e indiretamente os efeitos da borda da estrada nos componentes reprodutivos das plantas (abelhas visitantes florais, frutificação, herbivoria do diásporo e dispersão do diásporo) de três espécies anemocóricas (que se dispersão, espalham as sementes pelo vento) de Malpighiaceae abundantes e simpátricas (que ocorrem de forma conjunta, simultanea na natureza, nos mesmos locais) em uma reserva de savana brasileira (Cerrado).


Os resultados mostraram que (i) há efeitos diretos e indiretos de beira de estrada sobre os componentes reprodutivos das três espécies de plantas anemocóricas; (ii) os efeitos da borda da estrada não foram espécie-específicos para todos os componentes reprodutivos, exceto para abelhas visitantes florais; e (iii) influências de borda nos componentes reprodutivos das plantas na área de cerrado sensu stricto são restritas a 30 m da estrada, exceto para a produção de frutos.


Os resultados sugerem que as mudanças antrópicas (causadas pelo homem) na paisagem devem ser avaliadas em detalhes, já que mudanças que são freqüentemente consideradas "insignificantes" e muitos gestores dizem que não causam danos negativos à estrutura do ecossistema. Mas como vemos nesse estudo, podem ter impactos negativos e graves sobre ele.


Os autores discutem que "Nossos resultados são inovadores ao mostrar que uma estrada de terra estreita com pequeno tráfego de automóveis dentro da reserva pode exibir efeitos de borda diretos e indiretos em diferentes componentes reprodutivos das plantas, como as anemocóricas da família Malpighiaceae. Normalmente esperamos que grandes edifícios, estradas pavimentadas causem mudanças na biota e em suas interações ecológicas. Mas muitas vezes desconsideramos os efeitos de pequenas mudanças antropogênicas no meio ambiente, como o de pequenas estradas de terra. Nossos resultados mostram que (i) mesmo com maior frequência e riqueza de visitantes florais, o número de frutos produzidos não diferiu entre plantas à beira de uma estrada e plantas bem afastadas da estrada; (ii) os frutos da borda sofreram mais herbivoria; e (iii) os ventos nas bordas eram mais fortes, mas não indicam necessariamente que os diásporos (frutos alados, "com asinhas") se dispersarão ainda mais devido a taxas mais altas de herbivoria ou se dispersarão para locais adequados.


Esses resultados indicam que as influências no sistema estudado são complexas e podem ser idiossincráticas dependendo da espécie envolvida. Assim, as mudanças antrópicas na paisagem devem ser avaliadas detalhadamente, ou seja, mudanças que muitas vezes são consideradas desprezíveis e que se acredita não causam danos negativos à estrutura do ecossistema, podem ter impactos sobre ele. Uma medida mitigadora ou preventiva é evitar a fragmentação de áreas florestais, principalmente aquelas que podem ser facilmente evitadas, como a construção de estradas de terra que cruzam áreas preservadas."


Parabéns aos nossos cientistas!


Veja mais em:

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0169204621002541?dgcid=coauthor#f0015


Testing direct and indirect road edge effects on reproductive components of anemochoric plants.

Landscape and Urban Planning,

Letícia Rodrigues Novaes, Eduardo Soares Calixto, Larissa Alves-de-Lima, Marcos Lima de Oliveira, Kleber Del-Claro, Helena Maura Torezan-Silingardi*

*HMTS - Autor de Correspondência.


Volume 218,

2022,

104291,

ISSN 0169-2046,

https://doi.org/10.1016/j.landurbplan.2021.104291.






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