Buscar
  • Kleber Del Claro

Os Açúcares e o Câncer - mudanças de hábitos que melhoram sua saúde!


Um assunto despertou muito o interesse dos amigos de “A Ciência que nós fazemos”:

Como mudança em nossos hábitos de vida podem melhorar nossa saúde e em especial nos ajudar a combater doenças graves, como o câncer?


Assim, a pedidos dos amigos fui atrás de ler livros e artigos que pudessem ajudar em nossa compreensão e trazer aqui, as citações (fontes de referência confiáveis – artigos, livros, indexados internacionalmente com corpo de revisores) e um resumo das ideias centrais.


Esse é o segundo artigo, se você ainda não leu o introdutório, faça-o primeiro, antes de seguir:

https://www.cienciaquenosfazemos.org/post/mudan%C3%A7a-de-h%C3%A1bitos-ajuda-a-prevenir-o-c%C3%A2ncer


Como eu já disse no texto introdutório, link acima, precisa ficar muito claro que não existe nenhuma estratégia alternativa de tratamento capaz de curar o câncer. Ou seja, as técnicas desenvolvidas pela medicina são indispensáveis ao tratamento de qualquer tumor, tais como: cirurgia, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia e genética molecular. O que vou discutir aqui são estratégias individuais que podem ajudar nosso corpo a evitar e vencer o câncer, quando combinadas aos conhecimentos médicos, biológicos, bioquímicos e biofísicos da área. Terei como pano de fundo o livro do Prof. Servan-Schreiber¹, que tem tradução para o português, além de trabalhos científicos publicados em revistas internacionais indexadas, com corpo editorial, revisão por pares, renomadas.


As células cancerosas possuem fraquezas e temos que explorá-las!

Já faz quase duas décadas, desde os trabalhos pioneiros do Prof. Zheng Cui², da Universidade Wake Forest da Carolina do Norte, Estados unidos, e seus alunos, em especial Liya Qin, que sabemos que temos armas naturais para combater o câncer. Um sistema imunológico fortalecido, com células brancas muito ativas, é de fundamental importância para vencermos tumores. Em resumo¹, hoje sabemos que as células cancerosas perdem virulência quando o sistema imunológico se mobiliza contra elas; quando nosso corpo se recusa a produzir inflamações e vascularizações que propiciam a expansão do câncer.


Em 2007, a equipe da Profa. Catherine Koebel, da Universidade de Washington, publicou na Nature³ um estudo robusto tendo ratos e alcatrão da fumaça de cigarro como pano de fundo. Nesse trabalho revelaram evidências claríssimas de que quando o sistema imunológico está enfraquecido, há mais chances de microtumores se libertarem (de um tumor central) e começarem a se proliferar (metástases)³. Assim sendo, fortalecer nosso sistema imunológico é fundamental ao combate e controle de enfermidades. A Dra. Koebel mostrou pela primeira vez e de forma clara que células de câncer irão crescer facilmente em indivíduos cujas defesas imunológicas estejam enfraquecidas.


Em 1986, o Dr. Harold Dvorak da Universidade de Harvard, publicou no renomado The New England Journal of Medicine, o artigo: “Tumores: feridas que não se curam4, onde ele demonstra uma outra face dos tumores. A equipe revelou que inflamações (reações de nosso corpo muito necessárias para a cura e reparação de feridas) podem ser usadas pelas células defeituosas (cancerígenas) na produção ou crescimento de tumores. De fato, ele mostra que, por exemplo, o câncer de colo de útero está muito ligado a processos inflamatórios, assim como o de colón ocorre comumente em pessoas com doença inflamatória crônica. O de estômago, está diretamente ligado a infecções causadas pela bactéria Heliobacter pylori. Além disso, sabemos que inflamações nos brônquios, causadas por fumaça e aditivos tóxicos do cigarro, desencadeiam o câncer de pulmão. Hoje, quase 30 anos depois, a relação entre inflamação e tumores está bem estabelecida¹ e reconhecida pelo Instituto Nacional do Câncer, dos Estados Unidos e de várias outras nações. Desde 1990, médicos do hospital de Glasgow, na Escócia, medem indicadores de inflamação no sangue de pacientes que sofrem de diversos tipos de cânceres. Eles notaram que pacientes com menores níveis de inflamação, vivem muitos anos a mais do que aqueles com altos níveis. Atualmente, sabemos que bloqueadores de citocinas pró-inflamatórias (substâncias que desencadeiam inflamações em nosso corpo), a principal delas o NF-kappaB são fatores chaves no combate ao câncer. De fato, um número enorme de medicamentos anticancerígenos usados são bloqueadores ou inibidores de citocinas pró-inflamatórias1.

Uma outra descoberta da ciência muito importante para nossa saúde geral é a de que sentimentos de impotência, depressão, desespero, angústia são acompanhados em nosso corpo por um excesso na liberação de noradrenalina e cortisol (hormônio do estresse, por excelência). Esses hormônios, preparam o corpo para a possibilidade de uma ferida e sua reparação, portanto, estimulam fatores inflamatórios necessários à reparação do corpo, mas que também servem aos tumores latentes, como um “adubo”5. Ou seja, tumores, podem fazer uso de estratégias reparatórias de nosso corpo em seu benefício, são verdadeiros code-breakers (quebradores de código). Portanto, inflamações indesejadas, ou processos emocionais que levam ao estresse e liberação de hormônios inflamatórios são favoráveis aos tumores.


Um terceiro ponto importante para sabermos como o câncer atua é o fenômeno da “angiogênese”, descrito por Judah Folkman, cujo texto em português “Angiogênese: o gatilho proliferativo”6, de Pinho (2005), bem explica. Folkman foi pioneiro nas pesquisas em angiogênese (o crescimento de novos vasos sanguíneos, com base nos já existentes) e sua relação com a transformação dos tumores benignos em malignos. Veja o texto sugerido6 para entender melhor, mas basicamente os tumores provocam a criação de uma rede de vasos sanguíneos para nutri-los, processo alimentado pela inflamação natural do organismo na busca de conter o problema. Com essa finalidade, os tumores produzem uma substância chamada por Folkman de “angionenina” que força os novos vasos sanguíneos criados a irem na direção deles e os alimentarem. Folkman levou 20 anos para provar que estava correto, mas nunca desistiu.

Pois bem, então aqui nesse breve resumo fica evidente que os tumores têm fraquezas. Pois se tumores se beneficiam de deficiência imunológica, inflamações, angiogênese e um estado emocional debilitado, se identificarmos maneiras de ajudar nosso próprio corpo a reverter esse quadro podemos ajudar a medicina e suas técnicas e medicamentos específicos a vencer o câncer. Então, sabendo como o inimigo atua, podemos trabalhar para evitar dar armas ao inimigo. Se conseguimos fazer isso, podemos auxiliar a ciência e suas técnicas e fármacos a adiar uma luta, ou estendê-la. Podemos ganhar tempo para conquistar territórios, vencer batalhas e até mesmo nossa grande guerra contra o câncer e outras enfermidades. Para vencer esse inimigo, sabemos então que precisamos estimular nossas células imunológicas a combater as células cancerígenas, lutar contra a inflamação e agir para conter a angiogênese. Tudo isso aliado às intervenções e fármacos da medicina moderna. Como podemos ajudar na batalha?

Em seu livro¹, na página 65 da versão em português, o Dr. Servan-Schreiber lista alguns fatores de agravamento das inflamações em nosso corpo, que debilitam nosso sistema imunológico. Alguns desses fatores são de uso comum e abusivo nas sociedades contemporâneas. Vou destacar 5 principais fatores aqui:


1- Açúcares e farinhas refinadas;

2- Carne vermelha de animais criados em escala industrial;

3- Omega -6 (óleos e gorduras ricas em Omega-6 como de soja, milho, gorduras de laticínios processados – tais como presuntos, salsichas, bacon, etc.)

4- Fumaça de cigarro e poluentes atmosféricos, inclusive inseticidas domésticos;

5- Falta de atividade física, sensação de raiva, estresse, desespero;


Ao longo dos textos, vou tentar comentar sobre cada um desses pontos. Nesse texto 2, vou iniciar falando do açúcar.


O açúcar nutre o câncer


Nos últimos 200 mil anos nosso corpo mudou muito pouco em aspectos físicos. No entanto nossa mente sofreu alterações imensas a partir de 70 mil anos com a revolução cognitiva. Uma possível alteração genética que permitiu a nossa espécie estabelecer melhores conexões, relações, comparações entre características do mundo físico e abstrações do intelecto. Nossa capacidade cognitiva, imaginativa e perceptual expandiu incrivelmente. Com isso nossa vida em sociedade sofreu um incremento imenso, estabeleceram-se laços familiares, veio a revolução agrícola e posteriormente a industrial. De 200 anos para cá vivemos o Antropoceno, o tempo do homem. E tudo isso mexeu muito com nossa alimentação.


Antes do nosso crescimento intelectual e como sociedade, da produção de alimentos em larga escala e depois da produção industrial, nós, seres humanos, comíamos basicamente produtos de caça, pesca e colheita, extrativismo: muitas raízes, folhas, legumes frutas, alguma carne e ovos. Não éramos obesos, pois não sobrava muita gordura no corpo para uma espécie que caminhava muito, se exercitava em demasia. A vida moderna aumentou nossa qualidade e tempo de vida. Aumentou significativamente nosso acesso aos alimentos. Obviamente a vida moderna é infinitamente melhor que a vida no Paleolítico, ou que no início do Antropoceno. Mas com ela veio o problema do consumo errado e exagerado de alguns alimentos. Alimentos esses que podem reduzir nossa capacidade imunológica, aumentar inflamações e infecções quando consumidos de forma inadequada ou em excesso.


Neste texto falaremos do açúcar. Um alimento que em 1830 no início da revolução industrial, uma pessoa comum ingeria 5kg dele por ano. Sim, em 1830 uma pessoa comia 5Kg de açúcar por ano. Em 2000, esse número passou para 70kg por ano¹ (1-pág 87). Assustou? Isso varia muito entre nacionalidades7, sendo que o brasileiro consome de 4 a 5 vezes a mais do que o necessário por dia de açúcar. Isso na média! Pois como sabemos há pessoas que passam fome e não tem a quantidade mínima necessária, enquanto outros consomem mais de 10 vezes o necessário.

Num país de enormes desigualdades temos os famintos e mal nutridos de um lado e os bem abastados, mas também mal nutridos de outro lado da balança.


O Biólogo alemão Otto Heinrich Warburg recebeu o prêmio Nobel de medicina por ter descoberto que o metabolismo dos tumores cancerosos é altamente dependente do seu consumo de glicose. A partir dessas descobertas foi desenvolvido o scanner PET (tomografia por emissão de pósitrons) normalmente usado para detectar cânceres no corpo; esse aparelho mede as regiões do corpo que mais consomem glicose. Açúcares e farinhas brancas são fatores que fazem subir rapidamente as taxas de glicose no sangue, sendo considerados alimentos de alto índice glicêmico. O açúcar nutre e faz os tecidos de nosso corpo crescerem rapidamente, são estimulantes de insulina e IGF9, moléculas que atuam no crescimento celular e também nos fatores de inflamação. Assim sendo, o excesso de açúcares atua como adubo a favor dos tumores9, pois esses se nutrem em inflamações. Um estudo de Susan Hankinson, da Faculdade de Medicina de Harvard, mostrou que mulheres com altas taxas de IGF (cuja liberação no sangue é estimulada pela presença de glicose, açúcar) tinham sete vezes mais risco de câncer de mama que mulheres com taxas mais baixas. Uma pesquisa publicada no Journal of National Cancer Institute10 dos USA, concluiu que não é a obesidade em si o fator de risco, mas os altos níveis de insulina associados ao peso corporal excessivo. O mesmo fator está associado ao câncer de próstata em homens1(pg 89). A literatura científica das últimas duas décadas aponta claramente na direção de que se uma pessoa que quer evitar o câncer, deve limitar seriamente sua ingestão de açúcar e de farinhas brancas. Alimentos que contêm carboidratos (açúcares) com alto índice glicêmico, provocam picos de insulina e IGF, fatores estimulantes aos tumores.


Você não está proibido de comer um docinho, um brigadeiro, um pãozinho com manteiga, um bolo da vovó, se quiser evitar o risco de ter câncer. Mas não precisa comer o bolo inteiro, não precisa tomar dez xícaras de café bem adoçado com açúcar, mel, ou qualquer açúcar por dia. E principalmente, você tem que queimar as calorias e açúcares em excesso que ingere ao longo do dia. O sedentarismo é um grade amigo do acúmulo de glicose, da obesidade e dos altos níveis de insulina e IGF em seu corpo.


Quais são alimentos com índice glicêmico elevado e que devemos evitar ou reduzir o uso?


a) Açúcares: branco ou mascavo, xarope de milho, dextrose, mel, caldo de cana, rapadura;

b) Farinhas brancas: pão branco, massas (especialmente muito cozidas), arroz branco, bolos, biscoitos açucarados, etc.;

c) Batata, principalmente purê;

d) Flocos de milho, especialmente com açúcar, geleias e frutas em calda de açúcar;

e) Refrigerantes; sucos de frutas industrializados e adoçados;

f) Álcool – bebidas alcoólicas especialmente entre refeições.


Então, no que se refere a açúcares, se não quer que sejam um problema para sua saúde e se quer evitar câncer no futuro, reduza doces, açúcares, farinhas brancas como pães, bolos, massas e faça pelo menos 30 minutos de caminhada, 5 a 6 vezes por semana. O ideal é dar de 8 a 10 mil passos por dia, isso ajuda seu coração, seu metabolismo, estimula seu sistema imunológico. Carro parado enferruja, entope o motor, acaba virando sucata não é mesmo?


Ajude seu corpo a combater fontes de inflamação, infecção e angiogênese, não ajude o inimigo. Faça exames periódicos, a prevenção e uma vida saudável aumentam seu tempo e qualidade de vida.


No próximo texto abordaremos mais alimentos, e o estresse!


Um abraço,

Kleber Del Claro,

Seu amigo de A Ciência que nós Fazemos.

0000-0001-8886-9568 - ORCID



Referências:

1) Anticancer: A New Way of Life. - David Servan-Schreiber – 2009 -ISBN-10 ‏ : ‎ 0670021644.

2) Zheng Cui (2003). The winding road to the discovery of the SR/CR mice. Cancer Immun January 1 2003 (3) (1) 14;

3) Koebel CM, Vermi W, Swann JB, Zerafa N, Rodig SJ, Old LJ, Smyth MJ, Schreiber RD. Adaptive immunity maintains occult cancer in an equilibrium state. Nature. 2007 Dec 6;450(7171):903-7. doi: 10.1038/nature06309. Epub 2007 Nov 18. PMID: 18026089.

4) Harold F. Dvorak (1986) - Tumors: Wounds That Do Not Heal. N Engl J Med 1986; 315:1650-1659. DOI: 10.1056/NEJM198612253152606

5) Calcagni E, Elenkov I. Stress system activity, innate and T helper cytokines, and susceptibility to immune-related diseases. Ann N Y Acad Sci. 2006 Jun;1069:62-76. doi: 10.1196/annals.1351.006. PMID: 16855135.

6) https://www.sbcp.org.br/revista/nbr254/P396_402.htm

7) Newens, K.J., Walton, J. A review of sugar consumption from nationally representative dietary surveys across the world. (2016) J Hum Nutr Diet. 29, 225– 240 doi: 10.1111/jhn.12338

8) https://saude.abril.com.br/coluna/com-a-palavra/o-esforco-nacional-pela-reducao-no-consumo-de-acucar/

9) Grothey A, Voigt W, Schöber C, Müller T, Dempke W, Schmoll HJ. The role of insulin-like growth factor I and its receptor in cell growth, transformation, apoptosis, and chemoresistance in solid tumors. J Cancer Res Clin Oncol. 1999;125(3-4):166-73. doi: 10.1007/s004320050259. PMID: 10235470.

10) Gunter MJ, Hoover DR, Yu H, Wassertheil-Smoller S, Rohan TE, Manson JE, Li J, Ho GY, Xue X, Anderson GL, Kaplan RC, Harris TG, Howard BV, Wylie-Rosett J, Burk RD, Strickler HD. Insulin, insulin-like growth factor-I, and risk of breast cancer in postmenopausal women. J Natl Cancer Inst. 2009 Jan 7;101(1):48-60. doi: 10.1093/jnci/djn415. Epub 2008 Dec 30. PMID: 19116382; PMCID: PMC2639294.







586 visualizações2 comentários