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  • Kleber Del Claro

Mudança de hábitos ajuda a prevenir o câncer?




Nós, animais, somos seres heterótrofos, ou seja, não produzimos nosso próprio alimento como o fazem as plantas (autótrofos) através da fotossíntese. Assim sendo, dependendo do que comermos (plantas, fungos, microorganismos e outros animais) e nas quantidades que ingerirmos, definiremos grande parte de nossa constituição morfofisiológica e até mesmo psicológica. Isso mesmo, o que ingerimos pode afetar até nosso comportamento. Um exemplo negativo é o álcool e vários compostos químicos vegetais, mas vamos falar de um exemplo positivo. As bactérias do grupo Lactobacillus (comuns em alguns tipos de leite) desempenham um papel crítico na comunicação bidirecional entre o intestino e o cérebro. Consequentemente, esses “probióticos” têm o potencial de auxiliar no tratamento de distúrbios psicológicos, aliviando o estresse0. Por volta de 2.500 anos atrás, o pai da medicina, Hipócrates já dizia:

Que seu remédio seja seu alimento, e que seu alimento seja seu remédio”.


O Prof. Dr. David Servan-Schreiber, médico francês, radicado nos Estados Unidos, onde trabalhou como pesquisador e diretor do Centro de Medicina Integrada da Universidade de Pittsburgh, escreveu em seu livro¹ sobre uma estratégia pessoal contra o câncer, no capítulo de abertura, que:


Todos temos um câncer adormecido em nós. Como todo organismo vivo nosso corpo fabrica células defeituosas permanentemente. É assim que nascem os tumores. Mas nosso corpo é também equipado com múltiplos mecanismos que lhe permitem detectá-los e contê-los.... Compete a cada um de nós utilizá-los... somos frequentemente levados a acreditar que o câncer é uma questão, antes de tudo, de genes, não de estilo de vida.

Porém o inverso é que é verdade.


É disso que iremos tratar nesse primeiro texto voltado a entendermos um pouco melhor, como evitar, combater e vencer o câncer através de escolhas diárias que podemos fazer.


Antes de mais nada, precisa ficar muito claro que não existe nenhuma estratégia alternativa de tratamento capaz de curar o câncer. Ou seja, as técnicas desenvolvidas pela medicina são indispensáveis ao tratamento de qualquer tumor, tais como: cirurgia, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia e genética molecular.


O que vou discutir aqui são estratégias individuais que podem ajudar nosso corpo a evitar e vencer o câncer, quando combinadas aos conhecimentos médicos, biológicos, bioquímicos e biofísicos da área. Terei como pano de fundo o livro do Prof. Servan-Schreiber, que tem tradução para o português, além de trabalhos científicos publicados em revistas internacionais indexadas, com corpo editorial, revisão por pares, renomadas.


A Primeira coisa que temos que pensar é que o diagnóstico de câncer, ou a perspectiva de câncer por um histórico familiar não é o fim da batalha, mas apenas o início e você pode vencer. O brilhante biólogo Stephen Jay Gould, autor de Estrutura da Teoria da Evolução e considerado um dos maiores evolucionistas do século 20, foi informado em 1982 que sofria de um mesotelioma de abdômen, um câncer raro originário de exposição ao amianto. Imediatamente descobriu na biblioteca de sua universidade que a expectativa seria de 8 meses de vida. Bom, ao invés de desistir e se abater, ele foi ler mais, estudar, procurar onde e como a ciência lhe daria maiores chances de sobrevida. Gold descobriu então que embora a média de sobrevivência fosse de 8 meses, que todas as curvas de sobrevivência são assimétricas, ou seja, a metade inicial dos casos (50%) concentra-se na parte direita da curva, que é um sino alto e perfeito (os 8 meses), a segunda metade forma uma cauda longa. Assim ele descobriu que uma parcela das pessoas com aquele mesmo tipo de câncer, podia viver até 28 meses ou mais um pouco. Como as curvas que ele estudou eram de estatísticas de mais de dez anos, ele concluiu que avanços da medicina poderiam lhe dar ainda mais tempo. Então ele foi atrás de tudo que é informação que poderia lhe garantir um tempo de vida maior e viveu 30 vezes mais do que os oncologistas haviam previsto. Vinte anos depois, veio a falecer de outra doença. Ele deixou um texto muito interessante sobre essa experiência, “The Median Isn’t the Message (A mediana não é a mensagem)” ², que você pode ler livremente. Semelhantemente a Gold, o psiquiatra Servan-Schreiber¹, descobriu por acaso um câncer no cérebro e que teria dois anos de vida. Seguiu os passos de Gold, tornou-se uma celebridade internacional no assunto sobrevida ao câncer. Ele sobreviveu, por 20 anos com sua doença. Essas duas pessoas e muitas outras nos dão esperança e lições de mudança de vida em prol da vida.


Aqui, neste que espero que seja um primeiro texto para nossos amigos de “A Ciência que nós fazemos”³, buscarei passar alguns conhecimentos básicos, atualizados e fontes onde possam se aprofundar para saber um pouco mais sobre como nossos alimentos e modos de vida, contribuem para retardar, vencer ou ajudar os tumores.


Provas de que a alimentação e exercícios físicos – ajudam no combate ao câncer

Próstata, é um órgão masculino dos mais comentados quando se fala em câncer. Desde 2005 sabemos que “mudanças intensivas no estilo de vida podem afetar a progressão do câncer de próstata precoce e de baixo grau em homens”4. Um artigo publicado no renomado Jornal of Urology, por uma equipe liderada por um professor da Universidade de San Francisco, Califórnia, USA, provou isso. Homens que adotaram um estilo de vida mais saudável: alimentação basicamente vegetal, vitaminas E, C e selênio, 30 minutos de caminhada por dia (seis dias por semana), evitando carnes, além de participarem de um grupo de apoio de uma hora por semana, viram seus cânceres regredirem. Eles não precisaram de cirurgia e o PSA voltou praticamente ao normal. Enquanto no grupo controle, de homens que continuaram com vida normal a doença evoluiu e quase todos precisaram de intervenção cirúrgica, e tratamentos específicos. Seis pacientes do grupo controle, precisaram ser submetidos ao tratamento convencional devido ao aumento do PSA e/ou progressão da doença rapidamente percebida na ressonância magnética. O PSA diminuiu 4% no grupo experimental, mas aumentou 6% no grupo controle (p = 0,016). O crescimento de células de câncer de próstata LNCaP (American Type Culture Collection, Manassas, Virgínia) foi inibido quase 8 vezes mais pelo soro do grupo experimental (com dieta rica em vegetais e frutas) do que do grupo controle (70% vs 9%, p <0,001). Alterações no PSA sérico e também no crescimento de células LNCaP foram significativamente associadas ao grau de mudança na dieta e estilo de vida. Um resultado surpreendente do estudo foi que as pessoas que adotaram o tratamento do Dr. Ornish (coordenador da pesquisa) apresentaram modificações significativas no funcionamento de mais de quinhentos genes na próstata. O estudo dessa equipe, permitiu desmistificar a ideia de que por ter uma herança genética, nada podemos fazer contra um câncer.

Complementarmente em outro estudo6, cientistas demostraram e publicaram em Clinical Research Cancer, que o consumo de peixes gordurosos ricos em ômega-3, pelo menos duas vezes por semana, reduz significativamente o crescimento de câncer de próstata, diminui a inflamação e proliferação de microtumores de crescimento lento e metastático.

Um outro estudo foi feito na Universidade de Montreal no Canadá5, com mulheres que possuem genes capazes de gerar câncer de mama. As mulheres que passaram a consumir frutas, legumes e verduras regularmente e de forma variada apresentaram uma diminuição de 73% no risco de desenvolver câncer de mama quando comparadas ao grupo controle, que não se submeteu a essa dieta. Os resultados deixaram muito claro que alimentos vegetais tem papel direto no combate a inflamações e proliferação de células cancerosas. Como assim “inflamações”?

Desde 2006 temos dados concretos que mostram que pacientes cujo nível de inflamação no corpo é mais baixo tem duas vezes mais chances de sobreviverem ao câncer e vivem muitos anos a mais que os outros. Em resumo, as células cancerosas apresentam anomalias genéticas que as permitem escapar dos mecanismos de regulação dos tecidos, como o tempo de vida. Assim, elas tornam-se “imortais”, crescem e se dividem de forma descontrolada, vão tomando os espaços dos órgãos e os intoxicando com suas secreções. Isso cria inflamações locais, que se espalham, recrutam vasos sanguíneos para obter oxigênio e nutrientes, fazendo o tumor, a inflamação, crescer. As inflamações, que de fato são uma resposta do nosso sistema imunológico aos tumores, servem de combustível para os tumores tomarem mais células vizinhas, órgãos vizinhos e se espalhar. Para combater um câncer, um passo essencial é combater inflamações, e alimentos vegetais e aqueles ricos em ômega-3 ajudam nisso6. Um câncer começa a ser combatido quando o sistema imunológico se mobiliza, com seu sistema de defesa atacando as células cancerosas. Quando o corpo se recusa a produzir a inflamação que nutre o câncer e quando vasos sanguíneos não abastecem a proliferação do câncer. Essas defesas naturas não substituem cirurgias, radio ou quimioterapia, uma vez que o tumor esteja instalado. Drogas inibidoras de citocinas pró-inflamatórias são, por exemplo, essenciais ao combate ao câncer. Mas se reforçamos nosso sistema imunológico, se ajudamos nosso corpo a resistir a inflamações, damos uma chance às defesas naturais do nosso corpo. Elas podem evitar ou retardar o surgimento, crescimento, ou auxiliar no combate aos tumores.

Em seu livro, o Dr Servan-Schreiber¹ lista alguns fatores que agravam inflamações e tumores e alguns que reduzem.


Como fontes de agravamento de inflamações e tumores ele lista:

a- Açúcar e farinhas refinadas;

b- Óleos ricos em Omega-6 (milho, soja, girassol);

c- Carne vermelha de animais criados em escala industrial;

d- Fumaça de cigarro, poluentes como inseticidas domésticos;

e- Sedentarismo (menos de 20 minutos de atividade física por dia) e estresse.


Nos próximos textos irei detalhar, referenciado (como feito aqui) alguns desses pontos principais. Deixando claro que não existe milagre, não existem alimentos ou bebidas totalmente proibidas. Existe sim comedimento, autocontrole, ponderação, escolhas que podem ser possíveis para muitos de nós, para outros, infelizmente não.

Vamos lendo, artigos e livros sérios (revisados por pares, revistas indexadas, internacionais) e trazendo aqui, informações que podem ser úteis na tomada de decisão de cada um.

Um abraço e até o texto 2.


Prof. Dr Kleber Del Claro

A Ciência que nós fazemos



Referências:

0) Mindus et al. 2021 - Front. Behav. Neurosci., 16 June 2021 | https://doi.org/10.3389/fnbeh.2021.642757

1) Anticancer: A New Way of Life. - David Servan-Schreiber – 2009 -ISBN-10 ‏ : ‎ 0670021644.

2) https://journalofethics.ama-assn.org/article/median-isnt-message/2013-01

3) https://www.cienciaquenosfazemos.org/

4) Ornish D, Weidner G, Fair WR, Marlin R, Pettengill EB, Raisin CJ, Dunn-Emke S, Crutchfield L, Jacobs FN, Barnard RJ, Aronson WJ, McCormac P, McKnight DJ, Fein JD, Dnistrian AM, Weinstein J, Ngo TH, Mendell NR, Carroll PR. Intensive lifestyle changes may affect the progression of prostate cancer. J Urol. 2005 Sep;174(3):1065-9; discussion 1069-70. doi: 10.1097/01.ju.0000169487.49018.73. PMID: 16094059.

5) Ghadirian P, Narod S, Fafard E, et al. Breast cancer risk in relation to the joint effect of BRCA mutations and diet diversity. Breast Cancer Research and Treatment. 2009 Sep;117(2):417-422. DOI: 10.1007/s10549-008-0292-y. PMID: 19165595.

6) Dietary Omega-3 Fatty Acids, Cyclooxygenase-2 Genetic Variation, and Aggressive Prostate Cancer Risk. Vincent Fradet, Iona Cheng, Graham Casey and John S. Witte10.1158/1078-0432.CCR-08-2503 Published April 2009 –

7) Murri, A., Bartlett, J., Canney, P. et al. Evaluation of an inflammation-based prognostic score (GPS) in patients with metastatic breast cancer. Br J Cancer 94, 227–230 (2006). https://doi.org/10.1038/sj.bjc.6602922



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