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Filme como meio facilitador à educação ambiental – uma alternativa para tempo de pandemia.

Atualizado: Mai 5


Por Ana Julia Vicentin Moreira


Durante a pandemia, o sistema educacional se modificou drasticamente, onde o ensino a distância se tornou o modelo vigente. Sendo assim, a construção da relação entre professor e aluno e o conhecimento adquirido pelos discentes se tornam limitados, uma vez que o tempo de duração da aula é menor, não são todos alunos que tem a possibilidade de assistir as aulas síncronas e na maioria das vezes não ocorre participação direta dos alunos como ocorreria em um ambiente físico. Portanto, fóruns de discussão que exigem a compreensão sobre uma determinada situação problema e como solucioná-la podem instigar o aluno a uma compreensão profunda que leva ao conhecimento intrínseco.


É necessário mais do que nunca a criatividade do professor para instigar o aluno e assim contribuir com o seu processo cognitivo de forma que esse indivíduo não volte ao ensino presencial com defasagem. É importante que o aluno seja o protagonista na construção do próprio conhecimento; o professor é somente um agente mediador entre a criança ou adolescente e o saber. Utilizar ferramentas como vídeos, imagens, discussões e filmes, todos esses pontos podem corroborar para aulas mais interativas, menos pesadas e mais interessantes aos alunos do século XXI; onde deverão compreender o assunto para que possam discutir, apresentar seu ponto de vista e colaborar com todos os outros alunos que estão presentes na discussão, uma vez que muitas vezes a compreensão é mais fácil quando algum colega da mesma idade fala, do que com o professor explicando um determinado conteúdo.


A proposta da aula foi realizar uma discussão onde os discentes deveriam apresentar as suas perspectivas sobre o filme “O Lorax: em busca da trúfula perdida” para que fosse construído um conhecimento intrínseco o qual engloba aspectos cognitivos, no sentido de compreender o problema e buscar relacioná-lo com questões ambientais na atualidade, e emocionais, uma vez que o filme também traz o apelo emocional, onde se cria vínculos com a história e personagens.


O filme se passa em uma cidade onde não há árvores, em que no lugar da grama, se utiliza cimento verde e para substituir as árvores, são usadas árvores de plástico. Na história, um garoto busca uma semente de árvore verdadeira, sendo assim, precisa sair do perímetro urbano e enfrentar a pessoa mais poderosa da cidade, um homem que vive em função da comercialização de ar puro, já que a cidade é completamente poluída e não é do interesse desse homem que a população saiba o que aconteceu ou cultivem alguma planta verdadeira. A partir do desdobramento da produção audiovisual, descobre-se que um grupo reduzido de pessoas foram responsáveis pelo desmatamento geral da floresta, onde um indivíduo foi tomado pela ganância quando começou a ganhar dinheiro com as vendas do seu produto feito a partir da seda presente na copa das árvores da história.


Desde o momento em que o produto tomou grandes proporções, o “Umavezildo”, o principal responsável pelo desaparecimento das árvores, passou a não se importar mais com o número de árvores que eram cortadas e os animais que perdiam gradativamente o seu lar, se importava somente com o lucro. Mesmo esse indivíduo sendo avisado pelo guardião da floresta, o Lorax, que ele deveria tomar muito cuidado com as suas escolhas, pois elas poderiam trazer consequências, o Umavezildo não deu ouvidos e só compreendeu de fato o que o Lorax queria dizer quando a última árvore foi cortada, levando todos os animais terem que buscar outro lugar para viver e ele a perder a sua fonte de riqueza. O filme termina com uma mensagem muito bonita a qual diz “Unless someone like you cares a whole awful lot, nothing is going get better. It’s not”.


Após a compreensão do filme é imprescindível ressaltar a organização da metodologia do ensino a partir da compreensão do contexto e faixa-etária dos alunos, além de que se deve construir uma relação em que o aluno é o principal agente ao seu desenvolvimento intelectual. Sendo assim, o professor não age como o protagonista da construção do conhecimento, mas como um mediador.

Há muitos casos em que a constituição da aula aborda o conteúdo de forma pragmática e sem espaço ao aluno falar, interagir e discutir, dessa forma, o aluno se torna uma máquina de repetição para que possa acompanhar o modelo da pedagogia tradicional, instituída e vigente desde o século XIX, desconsiderando aspectos da realidade sociocultural dos alunos do século XXI, excluindo a grande parte dos alunos e não provocando um conhecimento a longo prazo.


É importante compreender que cada pessoa traz consigo uma construção complexa de aprendizado, onde a vivência de cada um determina a interpretação a diferentes situações entre os indivíduos, dessa forma, a partir da colaboração de vários alunos é possível chegar a conclusões muito mais concretas e profundas. A educação é sempre no plural, isto é, ninguém adquire conhecimento sem ajuda de outro indivíduo, seja por meio da escrita (livros), da fala (palestras) ou até mesmo de produções visuais (filmes). Essa proposta busca instituir o conhecimento a partir da construção de uma metodologia investigativa, a qual exige do aluno um pensamento crítico sobre a situação problema para tentar resolvê-la.


Os alunos que participaram são estudantes da escola estadual Profa Zulmira da Silva Salles (São José do Rio Preto, SP), os quais se encontram no 9° ano e fazem a disciplina de eletiva, onde se trata de uma matéria que possui a temática de desenvolver os alunos como cidadãos críticos e conscientes com a questão ambiental. Foram chamados à aula 100 alunos de 13 a 15 anos, entretanto estavam presentes 25 na aula assíncrona, sendo que 15 participaram ativamente na construção da aula discutindo e apresentando as considerações acerca o assunto abordado no filme, onde os aspectos ressaltados e discutidos pelos alunos foram:


- A situação de desmatamento sem pensar nas consequências ocorre a muito tempo, onde não há respeito algum pelas plantas e pelos animais;


- Tal qual no filme, existem aqueles indivíduos que detém o poder, os quais não querem que a população no geral saiba de tudo o que está ocorrendo de fato na natureza, especialmente aqueles que não seguem as regras instituídas pelas organizações governamentais responsáveis pela preservação do meio ambiente; como alguns latifundiários, que desmatam para aumentar as suas propriedades; grandes indústrias, que liberam resíduos em locais inapropriados como em rios, lagos e oceano; entre outros grupos da classe hegemônica os quais se preocupam mais com o próprio dinheiro e status social, do que com as florestas e a sua autorregulação ecológica definida ao longo de milhões de anos;


- Por mais que um grupo reduzido de indivíduos seja diretamente responsável pelo desmatamento massivo, parte da população sabia qual era o material base do produto (seda da copa das árvores), entretanto não se preocupavam muito, o que as torna responsáveis indiretas. Assim como no filme ocorre na sociedade moderna, onde diversos produtos podem ser nocivos ao meio ambiente, especialmente quando descartados incorretamente. Entretanto as pessoas não se preocupam e continuam consumindo, ocasionando poluição nos rios, lagos e oceanos com os seus dejetos;


- O ser humano desrespeita completamente a natureza, não se preocupando com o fato de que o meio ambiente passou por um processo de seleção dentro dos nichos ecológicos ao longo de milhões de anos, sendo assim, é muito melhor e mais fácil preservar e cuidar do que ainda tem, do que chegar ao ponto que chegou no filme em que não há mais nenhuma vegetação, uma vez que reflorestar é um processo muito mais complexo do que preservar.


- O filme traz uma representação exagerada de uma situação real, onde na história o desmatamento total da natureza decorre em um período curto de tempo e se trata somente de uma grupo que é responsável pelo desmatamento de uma floresta com somente uma espécie de árvores e três tipos diferentes de animais. Entretanto essa situação ocorre na vida em larga escala, onde há vários grupos os quais podem ser diretamente relacionados com o desmatamento de diversas florestas ao redor do planeta, onde as gerações futuras irão colher os frutos desse desrespeito em algum momento caso o humano não mude o seu comportamento nocivo;


- Por fim os alunos trouxeram a mesma questão apontada pelo filme: a menos que alguém se importe muito, nada vai mudar. É importante que eles compreendam que a geração deles irá viver a ponto de ver a natureza colapsar caso o humano não mude, portanto eles devem ser os primeiros a se importarem, a levar isso para dentro de casa e para o seu futuro como um cidadão crítico e consciente, o qual não se deixa enganar por aquilo que a classe hegemônica quer que acreditem, uma vez que é a principal controladora das mídias sociais;


Por mais que o professor tenha agido de forma a provocar a discussão, os alunos desenvolveram o pensamento crítico acerco o filme analisando a situação problema, correlacionando-a com a vida e buscando solucioná-la. Sendo assim, alguns outros aspectos foram levantados no decorrer do tempo de uma hora disponível à aula síncrona, onde foi mostrado aos alunos a red list da IUCN, a qual mostra diversas espécies ao redor do planeta e o quão ameaçada as mesmas se encontram, variando desde least concern até extinct. Essa lista foi mostrada para demonstrar o quanto o humano afeta diretamente as populações de animais residentes nas florestas e consequentemente, pode levar a extinção total ou em meio silvestre de diversas espécies.


Outro ponto interessante discutido foi o de que além das árvores serem importantes ao ecossistema como um todo, sendo assim, afetam direta ou indiretamente o humano, existem muitas plantas relevantes às pessoas no sentido de que podem ser consumidas. Então entrou-se na questão de PANC’s (plantas alimentícias não convencionais), as quais além de serem importantes para a alimentação, algumas também podem auxiliar à diminuição do consumo de carne, especialmente bovina, que gasta muita água virtual, é responsável por boa parte de desmatamento na Amazônia e polui a atmosfera por meio da liberação do gás metano. Dessa forma foi mostrado plantas como a ora-pro-nobis, que é uma grande fonte de proteínas, o flamboyanzinho, que é uma planta extremamente comum nas cidades, o peixinho-da-horta, que pode ser uma boa opção para substituir carnes, entre outras.


Durante a discussão pôde-se observar um processo gradual, onde as conclusões trazidas pelos alunos se tornaram cada vez mais complexas e profundas, onde quem trouxe a maior parte do conteúdo foram os alunos sozinhos, provando que os discentes possuem independência cognitiva para construir o próprio conhecimento.

Outro ponto importante dessa proposta foi demonstrar que a educação é plural, onde nem sempre o meio facilitador é o professor, pode ser um colega ou até mesmo um filme. Sendo assim, todos aspectos que o professor gostaria que os alunos trouxessem à aula, foram ressaltados, além de que muitas questões além daquilo que havia sido planejado também foram levantadas e discutidas entre os alunos, mostrando que o professor não é dotado de todo o conhecimento do mundo e que os alunos possuem muito a agregar à aula.


Portanto conclui-se que a mensagem foi transmitida e é de suma importância que essa geração compreenda o papel deles na preservação, respeitando o meio ambiente, descartando lixo corretamente, evitando certos produtos. Compreendendo que o humano depende na natureza muito mais do que ela precisa do homem e educando a sociedade como um todo, uma vez que nas palavras de Paulo Freire “se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”.


Ana Julia Vicentin Moreira

Acadêmica do Curso de Ciências Biológicas

Universidade Federal de Uberlândia - UFU



Literatura recomendada

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 2014. 336 p.

ROGERS, Carl Ransom. Liberdade para aprender: uma visão de como a educação deve vir a ser. Brasil: Interlivros de Minas Gerais, 1972. 329 p.

WALLON, Henri. Psicologia e Educação. 6. Ed. São Paulo: Edições Loyola, 2006. 87 p.





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