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  • Kleber Del Claro

Emergência Climática Global - uma triste realidade do século 21.

Atualizado: Abr 7



Os efeitos nocivos das mudanças climáticas já se mostram muito mais graves e preocupantes do que a maioria dos cientistas esperava. Há décadas diversos grupos internacionais lançam iniciativas, fazem declarações públicas, interpelam autoridades, buscando sensibilizar governos e pessoas com relação aos problemas que iríamos enfrentar no século 21 com o agravamento das temperaturas na Terra. Os problemas chegaram. Estão aí e serão inevitáveis, o que podemos fazer agora é tentar minimizá-los e revertê-los na medida do possível.

No início desse mês, os colegas William J. Ripple, Christopher Wolf,Thomas M. Newsome, Phoebe Barnard e William R. Moomaw, publicaram na Scientific American um artigo intitulado “The Climate Emergency: 2020 in Review”. Esses colegas liderados por William, conseguiram a assinatura de mais de 13 mil cientistas de 153 países, endossando as declarações deste e de outros documentos previamente publicados, alertando para a Emergência Climática que estamos vivendo. No artigo, os colegas discutem que há evidências crescentes ligando o aumento na frequência e intensidade de eventos meteorológicos extremos às mudanças climáticas. O ano de 2020, um dos anos mais quentes já registrados na história. Incêndios florestais avançaram por toda a costa oeste dos Estados Unidos, no Leste e outras partes da Austrália, no coração e no leste da Amazônia, no centro e no pantanal brasileiros. Na Sibéria tivemos uma onda de calor simplesmente inédita, com temperaturas recordes superiores a 38º C dentro do círculo ártico. Na Antártica a plataforma de gelo Larsen continua se fragmentando e produzindo icebergs (A68) do tamanho das Ilhas Geórgia do Sul. Estamos presenciando uma baixa recorde na extensão do gelo marinho do Ártico e tivemos uma temporada de ciclones, resultando em mais de US$46 bilhões em danos. Enchentes mortais por todo o planeta, especialmente na Asia, desabrigaram mais de 12 milhões de pessoas em 2020.

Neste estudo, nossos colegas cientistas deixam claro que “todos os esforços devem ser feitos para reduzir as emissões e aumentar as remoções de carbono atmosférico, a fim de restaurar o derretimento do Ártico e encerrar o ciclo mortal de danos que o clima atual está causando”. Está claro para nós cientistas que a mudança climática catastrófica poderia tornar uma parte significativa da Terra inabitável, em um tempo mais próximo do que imaginávamos. Os alertas começam a surtir alguns efeitos e pelo menos 33 países emitiram declarações de emergência climática, representando quase 1 bilhão de pessoas, ou seja, 1/8 da população mundial.

Não podemos ficar parados, temos que nos unir, chamar a atenção dos governantes e das pessoas. O documento de nossos colegas na Scientific American mostra que conforme avançamos em 2021 e além, precisamos de uma mobilização em grande escala para enfrentar a crise climática, incluindo muito mais progresso em seis principais etapas de mitigação das mudanças climáticas. As principais ações propostas nesse estudo para cada etapa incluem o seguinte:


1. Energia - Eliminar rapidamente o uso dos combustíveis fósseis é uma prioridade. Isso pode ser alcançado por meio de uma estratégia multifacetada baseada na rápida transição para energias renováveis ​​de baixo carbono, tais como a solar, a eólica, implementando práticas de conservação massivas e impondo taxas de carbono altas o suficiente para restringir o uso de combustíveis fósseis.


2. Poluentes - É vital cortar rapidamente as emissões de metano, carbono negro (fuligem), hidrofluorcarbonetos e outros poluentes climáticos de curta duração. Isso pode reduzir drasticamente a taxa de aquecimento a curto prazo.


3. Natureza - Devemos restaurar e proteger os ecossistemas naturais, como florestas, manguezais, pântanos e pastagens, permitindo que esses ecossistemas alcancem seu potencial ecológico para sequestrar dióxido de carbono da atmosfera.


4. Comida - Uma mudança na dieta para comer mais alimentos vegetais e consumir menos produtos animais, especialmente carne bovina, poderia reduzir significativamente as emissões de metano e outros gases de efeito estufa. As ações políticas relevantes incluem a redução dos subsídios à pecuária e apoio a pesquisa e o desenvolvimento de substitutos de carne ecologicamente corretos. Reduzir o desperdício de alimentos também é crítico, visto que pelo menos um terço de todos os alimentos produzidos é desperdiçado.


5. Economia- Devemos fazer a transição para uma economia livre de carbono que reflita nossa dependência da biosfera. A exploração de ecossistemas com fins lucrativos deve ser absolutamente interrompida para a sustentabilidade de longo prazo. Embora esta seja uma etapa ampla e holística envolvendo economia ecológica, existem ações específicas que apoiam essa transição. Os exemplos incluem o corte de subsídios e o desinvestimento da indústria de combustíveis fósseis.


6. População - A população humana global, crescendo em mais de 200.000 pessoas por dia, deve ser estabilizada e gradualmente reduzida usando abordagens que garantam a justiça social e econômica, como apoiar a educação para todas as meninas e mulheres e aumentar a disponibilidade de serviços voluntários de planejamento familiar.


Essas medidas todas podem parecer muito radicais para a maioria das pessoas, e talvez sejam mesmo. Mas se considerarmos que ao longo de toda a história da humanidade, até os anos de 1990, não havíamos presenciado uma variação de temperaturas de mais ou menos 2ºC na média global do planeta. Mas que nos últimos 20 anos, essa média subiu drasticamente sinalizando que antes de 2030, podemos chegar a um aumento de 4ºC na média, temos que reconhecer que realmente estamos em uma contagem regressiva com relação à nossa capacidade de sobreviver nesse planeta, que é nossa única casa. Chegamos a um limite, e para problemas extremos, precisamos de mudanças extremas e significativas. Eu acredito que somos capazes de promover essas mudanças e para isso, todos teremos que ceder. Se nada fizermos é o futuro de nossas crianças de hoje que está condenado. Elas terão que viver em um mundo absolutamente quente, com um ar de qualidade muito ruim, superpopuloso, com falta de alimentos, falta de empregos, solos e águas contaminadas. O resultado serão eventos climáticos extremos cada vez mais constantes, pandemias como rotina.

Procure se informar, leia* sobre essas questões, precisamos de você.


Kleber Del-Claro

Editor de A Ciência que nós fazemos - Professor Titular da Universidade Federal de Uberlândia e da Universidade de São Paulo (FFCLRP). Pesquisador 1A do CNPq.

https://www.cienciaquenosfazemos.org/


*Ref: https://www.scientificamerican.com/article/the-climate-emergency-2020-in-review/

William J Ripple, Christopher Wolf, Thomas M Newsome, Phoebe Barnard, William R Moomaw, World Scientists’ Warning of a Climate Emergency, BioScience, Volume 70, Issue 1, January 2020, Pages 8–12, https://doi.org/10.1093/biosci/biz088



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